sábado, 9 de outubro de 2010

QUE VENGA EL TORO!


Pode ser que você, como eu, nunca tenha visto uma autêntica tourada espanhola.  Mas sem dúvida pelo menos já ouviu falar, já viu filmes, desenhos, etc.  Para muitas mentes civilizadas e principalmente para os membros das sociedades protetoras dos animais, a tourada é um ato bárbaro, desumano, anticristão.  Estou até vendo essas almas purificadas comendo seu hambúrguer no McDonald's ou fatiando uma picanha enquanto condenam o sacrifício inútil do touro na lâmina precisa do toureiro.

Vocês devem saber que antes do touro chegar no tête-a-tête com o matador, ele passa pelas mãos dos banderilleros e do picador.  Estes cravam no seu couro palitos gigantes (banderilhas) e o espetam com lanças compridas. Crueldade?  Não,  provocação!  A dor dessas picadas só faz o touro ficar mais enfurecido, mais alucinado, mais vingativo.  Ele agora mais do que nunca, deseja acertar aquele ser todo arrumado com aquela maldita mancha vermelha provocativa e nele se concentra toda a ira do touro. Ele é responsável pelas picadas, pela dor, pelo sangue grosso que escorre pelo negro pelo reluzente de suor.
A dor, o sangue, o ódio, o alvo, o vermelho.  O touro nesse estado já está em transe, ele não vê mais a arena, o público, os picadores e toda a trampa que acompanha o toureiro.  Ele agora está num espaço mágico, fora dali, onde só existe a sua dor, o seu ódio e aquela "mancha" vermelha que se agita de um lado para o outro.  Num instante tudo desaparece, só existe o ódio e a "mancha" vermelha, o ataque, uma estocada fria e profunda e BUF, 600 quilos de massa morta tombam na arena.

Essa narração poetizada da tourada poderia descrever metaforicamente momentos dramáticos da vida (e da morte) de muitas pessoas, talvez até da sua e da minha.
O touro é a nossa parte animal, é pura emoção, é vermelha, é passional, responde com incrível imediatismo aos estímulos, instigações, provocações do meio.
O touro é monocromático, o seu universo reduzido vai se reduzindo à medida que os provocadores vão ferindo-o superficialmente, beliscando as suas alcatras, mas em nenhum momento o aleijam, nem lhe tiram os movimentos; seus ferimentos doem mais na "alma" do que na carne (novamente recorro à licença poética para me colocar no lugar do touro).

Quantas vezes reagimos como o touro diante das espicaçadas da vida?  Nem sempre o nosso padrão psico-emocional e físico nos possibilita investir com os chifres à frente nos traseiros dos "toureiros" culpados (safados) pelas nossas desditas.  Às vezes o toureiro é muito forte, ou são muitos, e o mínimo de instinto de sobrevivência nos desaconselha a atacá-lo, aí atacamos a mulher (ou  o marido), nos vingamos nos filhos, chutamos o cachorro, gritamos com o faxineiro ou pior ainda nos "intrachiframos", apunhalamos o nosso fígado, os nossos rins, o estômago ou todo o corpo, ou a mente.

Esse tipo de reação-vingança é a pior e a mais burra, é a autovingança, é como costumo chamar "fazer o jogo do inimigo".  Reconheço que é muito difícil fugir aos condicionamentos do tipo "bateu-levou".  Como vamos ignorar a selva e a caverna que existem dentro de nós ainda?  Somos um estágio no processo evolutivo da raça. À medida que o ser se liberta das âncoras gravitacionais terrenas, psicológica e espiritualmente, ele também se eleva, se liberta dos condicionamentos.

O caminho do homem não é matar o touro passional que existe dentro de si, é controlá-lo, usar a sua imensa força para gerar mais força, tanta força que seria capaz de fazê-lo decolar da arena e voar como uma gaivota sobre as arquibancadas e sumir em meio às nuvens.


Essa é a grande "missão" do ser neste planeta, tornar-se senhor de si, transmutar a energia animal em energia hominal e mais tarde alcançar estágios mais refinados. (Roberto Goldkorn - O poder da vingança)

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